terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

UMA VOZ REVOLUCIONÁRIA - O que é a Igreja? Ontem, Hoje e os Perigos do Poder... ----- A REVOLUTIONARY VOICE What is the Church? Yesterday, Today, and the Dangers of Power

 


UMA VOZ REVOLUCIONÁRIA

O que é a Igreja?

Ontem, Hoje e os Perigos do Poder

 

Quando perguntamos “O que é a Igreja?”, muitos pensam em prédios, instituições ou denominações. Nas Escrituras, a Igreja é o povo redimido por Deus, reunido em torno de Jesus Cristo, vivendo sob a autoridade da Sua Palavra e manifestando o Seu Reino na terra.

Antes de qualquer coisa, é importante esclarecer: ao usar a palavra Igreja neste texto, não estou me referindo a uma denominação específica, nem a uma instituição religiosa isolada, nem a uma estrutura organizacional em particular. Refiro-me à Igreja como o conjunto de homens e mulheres que seguem a Jesus Cristo — pessoas que confessam sua fé e vivem o Evangelho no cotidiano.

A palavra igreja vem do termo grego ekklesia, que significa “assembleia chamada para fora”. Ou seja, a Igreja é formada por pessoas chamadas para fora do sistema do mundo, para viver uma nova vida em Cristo.


 

A Igreja no Primeiro Século: Fé, Unidade e Coragem

Ao olharmos para a Igreja descrita em Atos dos Apóstolos, encontramos uma comunidade viva, simples e profundamente comprometida com Deus:

“Todos os que criam estavam unidos e tinham tudo em comum.” (Atos 2:44 – NTLH)

Era uma igreja:

  • Perseguida, mas firme
  • Sem privilégios políticos
  • Sem templos monumentais
  • Sem cadeiras especiais

Não havia necessitados entre eles. Não havia acepção de pessoas. Não havia divisão por status social. A comunhão era real. A liderança era servidora. A autoridade era espiritual.

Seguir a Cristo era um ato revolucionário. Declarar “Jesus é Senhor” era confrontar o poder do Império.


 

Quando a Igreja se Aproxima Demais do Estado

Com o passar dos séculos, a Igreja atravessou perseguições, reformas, avivamentos — mas também enfrentou perigos quando passou a ser abraçada pelo poder político.

 

Roma: Da Perseguição à Oficialização

No início, o Império Romano perseguiu os cristãos. Porém, no século IV, com o imperador Constantino, o cristianismo deixou de ser perseguido e passou a ser tolerado e posteriormente favorecido pelo Estado.

O que começou como movimento espiritual tornou-se, em muitos aspectos, instituição associada ao poder imperial. A cruz passou a caminhar ao lado da espada. A fé, que antes era escolha pessoal e corajosa, tornou-se, em muitos casos, identidade cultural.

Quando a Igreja se mistura excessivamente com o poder estatal, corre o risco de perder sua voz profética.


 

As Cruzadas e o Uso da Fé como Justificativa de Guerra

Outro exemplo histórico são as Cruzadas medievais, quando expedições militares foram organizadas sob a justificativa religiosa de recuperar territórios considerados sagrados.

Embora o contexto histórico seja complexo, é inegável que atrocidades foram cometidas em nome da fé. Quando a Igreja assume linguagem de conquista territorial e violência, ela se distancia do Cristo que ensinou a amar os inimigos.

A espada jamais foi o instrumento do Reino de Deus.


 

O Nacionalismo Alemão no Século XX e a Resistência Cristã

Durante o regime de Adolf Hitler, na Alemanha do século XX, parte significativa das igrejas protestantes aderiu ao discurso nacionalista e antissemita promovido pelo Estado. Surgiu o movimento conhecido como “Cristãos Alemães”, que buscava alinhar o cristianismo à ideologia do regime.

Entretanto, houve resistência. A chamada Igreja Confessante foi um movimento dentro do protestantismo alemão que rejeitou a interferência do Estado na doutrina e na vida da Igreja. Em 1934, a Declaração de Barmen afirmou que Cristo — e não o Führer — era o único Senhor da Igreja.

Entre seus líderes estava Dietrich Bonhoeffer, pastor e teólogo que denunciou o totalitarismo, ajudou judeus perseguidos e acabou preso e executado pelo regime. Bonhoeffer compreendeu que uma igreja que não confronta a injustiça deixa de ser Igreja.

A lição é clara: quando a Igreja se cala por medo ou conveniência política, ela perde sua voz revolucionária.

Quando a Igreja deixa de confrontar o pecado por medo ou conveniência política, ela deixa de ser voz revolucionária e passa a ser eco do poder.


Outros Momentos de Alinhamento Perigoso

Ao longo da história, diferentes regimes políticos instrumentalizaram a religião para legitimar poder, controlar populações ou reforçar ideologias. Sempre que a Igreja troca sua missão espiritual por influência política, ela corre o risco de se tornar ferramenta do sistema que deveria confrontar.


 

A Lição Histórica

A história nos ensina que:

  • Quando a Igreja é perseguida, muitas vezes ela se purifica.
  • Quando é adotada pelo poder sem vigilância espiritual, corre risco de acomodação.
  • Quando troca a cruz pela influência política, perde autoridade moral.

A Igreja não foi chamada para dominar Estados, mas para transformar pessoas.


 

Problemas Contemporâneos

Hoje, no século XXI, os desafios continuam.

1. Hierarquia como Dominação

Jesus ensinou, em Evangelho de Mateus 20:26:

“Entre vocês não deve ser assim; pelo contrário, quem quiser ser importante que sirva os outros.” (NTLH)

Porém, quando a liderança se torna autoritária, distante e intocável, a Igreja deixa o modelo de serviço e assume o modelo de poder.


2. Espaços VIP e Aceitação por Status

A Igreja do primeiro século não fazia distinção entre ricos e pobres. Hoje, em alguns contextos, vemos privilégios para quem contribui mais ou tem maior influência social.

Em Carta de Tiago 2:1 está escrito:

“Vocês que creem em nosso Senhor Jesus Cristo não devem tratar as pessoas de modo diferente por causa da aparência delas.” (NTLH)

Não existe Evangelho VIP. Não existe cadeira especial aos pés da cruz.


3. Prosperidade como Moeda de Troca

Outro grande desvio é transformar fé em negociação. A ideia de que ofertas garantem prosperidade automática cria uma espiritualidade comercial.

Na primeira Carta a Timóteo 6:5-6 lemos:

“Eles pensam que a religião é um meio de enriquecer. É claro que a religião é uma fonte de grandes riquezas, mas somente para quem está satisfeito com o que tem.” (NTLH)

Deus não é investidor. Ele é Senhor. A bênção maior não é financeira — é espiritual.


 

Igreja: Instituição ou Movimento?

A Igreja nasceu como movimento espiritual. Tornou-se instituição ao longo da história, o que não é necessariamente errado. Estrutura é necessária. Organização é importante.

Mas quando a estrutura substitui o Espírito, quando o poder substitui o serviço e quando o status substitui o amor, perdemos nossa essência.

Cristo declarou no Evangelho de Mateus 16:18:

“Eu construirei a minha Igreja, e nem a morte poderá vencê-la.” (NTLH)

A Igreja pertence a Ele — não ao Estado, não ao mercado, não a líderes humanos.


 

Conclusão: Somos Ainda Uma Voz Revolucionária?

A Igreja do século XXI precisa recuperar:

  • A coragem do primeiro século
  • A comunhão verdadeira
  • A liderança servidora
  • A independência espiritual diante do poder político
  • A centralidade absoluta em Cristo

Ser Igreja é ser contracultural.
É amar quando o mundo odeia.
É servir quando o mundo domina.
É permanecer fiel quando o poder seduz.

Se a carapuça couber, que tenhamos coragem de mudar.

Porque a Igreja não precisa de mais aparência.
Precisa de mais autenticidade.
Não precisa de mais palco.
Precisa de mais cruz.

A pergunta final é simples, mas profunda:

Estamos sendo uma voz revolucionária ou apenas uma instituição acomodada?

Que a Igreja de hoje não seja lembrada por seu poder político ou riqueza material, mas por sua fidelidade ao Senhor Jesus Cristo e por sua coragem de viver o Evangelho em qualquer tempo da história.

 

Cláudio Eduardo M Costa

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