UMA VOZ REVOLUCIONÁRIA
O que é a Igreja?
Ontem, Hoje e os Perigos do Poder
Quando perguntamos “O que é a
Igreja?”, muitos pensam em prédios, instituições ou denominações. Nas
Escrituras, a Igreja é o povo redimido por Deus, reunido em torno de Jesus
Cristo, vivendo sob a autoridade da Sua Palavra e manifestando o Seu Reino na
terra.
Antes de qualquer coisa, é
importante esclarecer: ao usar a palavra Igreja neste texto, não estou
me referindo a uma denominação específica, nem a uma instituição religiosa
isolada, nem a uma estrutura organizacional em particular. Refiro-me à Igreja
como o conjunto de homens e mulheres que seguem a Jesus Cristo — pessoas que
confessam sua fé e vivem o Evangelho no cotidiano.
A palavra igreja vem do
termo grego ekklesia, que significa “assembleia chamada para fora”. Ou
seja, a Igreja é formada por pessoas chamadas para fora do sistema do mundo,
para viver uma nova vida em Cristo.
A Igreja no Primeiro Século:
Fé, Unidade e Coragem
Ao olharmos para a Igreja
descrita em Atos dos Apóstolos, encontramos uma comunidade viva, simples e
profundamente comprometida com Deus:
“Todos os que criam estavam
unidos e tinham tudo em comum.” (Atos 2:44 – NTLH)
Era uma igreja:
- Perseguida, mas firme
- Sem privilégios políticos
- Sem templos monumentais
- Sem cadeiras especiais
Não havia necessitados entre
eles. Não havia acepção de pessoas. Não havia divisão por status social. A
comunhão era real. A liderança era servidora. A autoridade era espiritual.
Seguir a Cristo era um ato
revolucionário. Declarar “Jesus é Senhor” era confrontar o poder do Império.
Quando a Igreja se Aproxima
Demais do Estado
Com o passar dos séculos, a
Igreja atravessou perseguições, reformas, avivamentos — mas também enfrentou
perigos quando passou a ser abraçada pelo poder político.
Roma: Da Perseguição à
Oficialização
No início, o Império Romano
perseguiu os cristãos. Porém, no século IV, com o imperador Constantino, o
cristianismo deixou de ser perseguido e passou a ser tolerado e posteriormente
favorecido pelo Estado.
O que começou como movimento
espiritual tornou-se, em muitos aspectos, instituição associada ao poder
imperial. A cruz passou a caminhar ao lado da espada. A fé, que antes era
escolha pessoal e corajosa, tornou-se, em muitos casos, identidade cultural.
Quando a Igreja se mistura
excessivamente com o poder estatal, corre o risco de perder sua voz profética.
As Cruzadas e o Uso da Fé como
Justificativa de Guerra
Outro exemplo histórico são as
Cruzadas medievais, quando expedições militares foram organizadas sob a
justificativa religiosa de recuperar territórios considerados sagrados.
Embora o contexto histórico
seja complexo, é inegável que atrocidades foram cometidas em nome da fé. Quando
a Igreja assume linguagem de conquista territorial e violência, ela se
distancia do Cristo que ensinou a amar os inimigos.
A espada jamais foi o
instrumento do Reino de Deus.
O Nacionalismo Alemão no
Século XX e a Resistência Cristã
Durante o regime de Adolf
Hitler, na Alemanha do século XX, parte significativa das igrejas protestantes
aderiu ao discurso nacionalista e antissemita promovido pelo Estado. Surgiu o
movimento conhecido como “Cristãos Alemães”, que buscava alinhar o cristianismo
à ideologia do regime.
Entretanto, houve resistência.
A chamada Igreja Confessante foi um movimento dentro do protestantismo alemão
que rejeitou a interferência do Estado na doutrina e na vida da Igreja. Em
1934, a Declaração de Barmen afirmou que Cristo — e não o Führer — era o único
Senhor da Igreja.
Entre seus líderes estava Dietrich
Bonhoeffer, pastor e teólogo que denunciou o totalitarismo, ajudou judeus
perseguidos e acabou preso e executado pelo regime. Bonhoeffer compreendeu que
uma igreja que não confronta a injustiça deixa de ser Igreja.
A lição é clara: quando a
Igreja se cala por medo ou conveniência política, ela perde sua voz
revolucionária.
Quando a Igreja deixa de
confrontar o pecado por medo ou conveniência política, ela deixa de ser voz
revolucionária e passa a ser eco do poder.
Outros Momentos de Alinhamento
Perigoso
Ao longo da história,
diferentes regimes políticos instrumentalizaram a religião para legitimar
poder, controlar populações ou reforçar ideologias. Sempre que a Igreja troca
sua missão espiritual por influência política, ela corre o risco de se tornar
ferramenta do sistema que deveria confrontar.
A Lição Histórica
A história nos ensina que:
- Quando a Igreja é perseguida, muitas vezes
ela se purifica.
- Quando é adotada pelo poder sem vigilância
espiritual, corre risco de acomodação.
- Quando troca a cruz pela influência
política, perde autoridade moral.
A Igreja não foi chamada para
dominar Estados, mas para transformar pessoas.
Problemas Contemporâneos
Hoje, no século XXI, os
desafios continuam.
1. Hierarquia como Dominação
Jesus ensinou, em Evangelho de
Mateus 20:26:
“Entre vocês não deve ser
assim; pelo contrário, quem quiser ser importante que sirva os outros.”
(NTLH)
Porém, quando a liderança se
torna autoritária, distante e intocável, a Igreja deixa o modelo de serviço e
assume o modelo de poder.
2. Espaços VIP e Aceitação por
Status
A Igreja do primeiro século
não fazia distinção entre ricos e pobres. Hoje, em alguns contextos, vemos
privilégios para quem contribui mais ou tem maior influência social.
Em Carta de Tiago 2:1 está
escrito:
“Vocês que creem em nosso
Senhor Jesus Cristo não devem tratar as pessoas de modo diferente por causa da
aparência delas.” (NTLH)
Não existe Evangelho VIP. Não
existe cadeira especial aos pés da cruz.
3. Prosperidade como Moeda de
Troca
Outro grande desvio é
transformar fé em negociação. A ideia de que ofertas garantem prosperidade
automática cria uma espiritualidade comercial.
Na primeira Carta a Timóteo
6:5-6 lemos:
“Eles pensam que a religião é
um meio de enriquecer. É claro que a religião é uma fonte de grandes riquezas,
mas somente para quem está satisfeito com o que tem.”
(NTLH)
Deus não é investidor. Ele é
Senhor. A bênção maior não é financeira — é espiritual.
Igreja: Instituição ou
Movimento?
A Igreja nasceu como movimento
espiritual. Tornou-se instituição ao longo da história, o que não é
necessariamente errado. Estrutura é necessária. Organização é importante.
Mas quando a estrutura
substitui o Espírito, quando o poder substitui o serviço e quando o status
substitui o amor, perdemos nossa essência.
Cristo declarou no Evangelho
de Mateus 16:18:
“Eu construirei a minha
Igreja, e nem a morte poderá vencê-la.” (NTLH)
A Igreja pertence a Ele — não
ao Estado, não ao mercado, não a líderes humanos.
Conclusão: Somos Ainda Uma Voz
Revolucionária?
A Igreja do século XXI precisa
recuperar:
- A coragem do primeiro século
- A comunhão verdadeira
- A liderança servidora
- A independência espiritual diante do poder
político
- A centralidade absoluta em Cristo
Ser Igreja é ser
contracultural.
É amar quando o mundo odeia.
É servir quando o mundo domina.
É permanecer fiel quando o poder seduz.
Se a carapuça couber, que
tenhamos coragem de mudar.
Porque a Igreja não precisa de
mais aparência.
Precisa de mais autenticidade.
Não precisa de mais palco.
Precisa de mais cruz.
A pergunta final é simples,
mas profunda:
Estamos sendo uma voz
revolucionária ou apenas uma instituição acomodada?
Que a Igreja de hoje não seja
lembrada por seu poder político ou riqueza material, mas por sua fidelidade ao
Senhor Jesus Cristo e por sua coragem de viver o Evangelho em qualquer tempo da
história.
Cláudio Eduardo M Costa