ELE
NÃO IGNORA A SUA DOR!
Salmo
109 —
Você já foi acusado injustamente? Já foi traído
por pessoas de quem esperava apoio, sinceridade e companheirismo? Já sentiu a
dor de perceber que alguém em quem confiava se voltou contra você?
É sobre essas experiências que quero conversar
com você.
Nossa leitura é o Salmo 109, uma oração que nos
ensina a levar a Deus as feridas que nem sempre conseguimos explicar às
pessoas.
Neste salmo, encontramos Davi na presença do
Senhor, sem esconder sua dor ou disfarçar sua decepção. Ele reconhece que
precisa da intervenção divina porque não consegue enfrentar sozinho todas as
batalhas. O salmista nos ensina uma lição importante: não precisamos fingir que
estamos bem diante de Deus. Mesmo quando o sofrimento é profundo, podemos nos
aproximar dele com sinceridade, apresentando nossas perguntas, nossas angústias
e nossas necessidades. A oração não exige que escondamos nossas emoções, mas que
aprendamos a colocá-las diante daquele que conhece o nosso coração.
Nos primeiros versículos, Davi expressa sua
indignação diante das acusações que enfrenta: “Ó Deus do meu louvor, não te
cales, pois contra mim se abriram lábios maldosos e fraudulentos; com língua
mentirosa falam contra mim” (Salmo 109:1-2 — NAA).
O salmista descreve uma realidade dolorosa:
mentiras, hostilidade e palavras capazes de ferir sua reputação. A traição e a
falsidade não são experiências exclusivas de nossos dias. O próprio Jesus
Cristo foi traído por alguém que fazia parte de seu círculo mais próximo, Judas
Iscariotes (Mateus 26:14-16, 47-50 — NAA). Isso nos lembra que a proximidade
física ou religiosa nem sempre significa lealdade e sinceridade.
Talvez você pense que nunca passou por uma
situação semelhante. Entretanto, vale a pena refletir sobre as experiências que
já vivemos nos relacionamentos familiares, profissionais e até mesmo na igreja.
Quantas vezes palavras precipitadas, julgamentos injustos e atitudes desleais
provocaram feridas profundas?
Hoje, com a internet e as redes sociais, uma
mentira pode se espalhar em poucos minutos, comprometendo a reputação de alguém
antes mesmo que os fatos sejam esclarecidos. Por isso, precisamos vigiar nossas
palavras, verificar as informações que compartilhamos e não participar de
ambientes digitais que promovem humilhação, calúnia ou destruição da dignidade
humana. A Bíblia nos adverte a abandonar a mentira e falar a verdade uns com os
outros (Efésios 4:25 — NAA).
Ao prosseguirmos na leitura, encontramos uma
das partes mais marcantes do salmo. Davi clama: “Mas tu, Senhor Deus, age
por mim, por amor do teu nome; livra-me, porque é boa a tua misericórdia.
Porque sou pobre e necessitado e, dentro de mim, sinto ferido o coração”
(Salmo 109:21-22 — NAA).
Aqui, a palavra pobre merece nossa
atenção. Davi era rei, possuía autoridade e dispunha de recursos materiais.
Entretanto, reconhece diante de Deus que é pobre e necessitado. Nesse contexto,
a expressão aponta para sua vulnerabilidade e dependência de auxílio. Mesmo com
poder e recursos, ele não consegue resolver tudo sozinho. Seu coração está
ferido, e ele precisa da misericórdia do Senhor.
Quando penso nessa declaração, lembro-me do
Davi que enfrentou Golias, conforme 1 Samuel 17, e que reconheceu que a vitória
não dependia apenas da força humana, mas do Senhor (1 Samuel 17:45-47 — NAA). O
mesmo homem que demonstrou coragem diante de um guerreiro poderoso também
reconheceu sua fragilidade na presença de Deus. Isso nos ensina que ser forte
não significa nunca precisar de ajuda. Podemos ter responsabilidades,
experiências e recursos e, ainda assim, enfrentar momentos em que nossas forças
parecem insuficientes.
A maturidade espiritual também se revela quando
reconhecemos nossas limitações e buscamos o Senhor com humildade.
Como você tem lidado com as dores que ninguém
consegue enxergar? Tem tentado esconder tudo para parecer forte ou tem
encontrado tempo para conversar sinceramente com Deus?
Há feridas que não aparecem no rosto, mas
afetam nossos pensamentos, nossos relacionamentos e a maneira como enxergamos a
vida. O salmo nos convida a reconhecer essa realidade e a buscar auxílio,
lembrando que não precisamos carregar sozinhos todos os nossos fardos.
Nos versículos seguintes, Davi fundamenta seu
pedido não em seus próprios méritos, mas na misericórdia divina: “Socorre-me,
Senhor, meu Deus! Salva-me segundo a tua misericórdia. Para que saibam que isso
vem das tuas mãos; que tu, Senhor, o fizeste” (Salmo 109:26-27 — NAA).
Ele não apresenta uma lista de conquistas nem
tenta negociar com Deus. Seu clamor está firmado na bondade do Senhor. Essa é
uma lição importante para nossa vida espiritual: não nos aproximamos de Deus
como quem exige uma recompensa, mas como filhos que reconhecem sua necessidade
de graça, cuidado e direção.
É nesse ponto que precisamos olhar para Jesus
Cristo, nosso modelo de compaixão e serviço. Mateus registra que Jesus
percorria cidades e aldeias, ensinando, anunciando o evangelho do Reino e
curando enfermidades. Ao ver as multidões, compadeceu-se delas, porque estavam
aflitas e exaustas, como ovelhas sem pastor. Então, disse aos discípulos que a
seara era grande, mas os trabalhadores eram poucos, e os orientou a pedir ao
Senhor da seara que enviasse trabalhadores (Mateus 9:35-38 — NAA).
Jesus não olhava para as pessoas com
indiferença. Ele enxergava suas necessidades e se aproximava delas com
misericórdia.
Se afirmamos que seguimos Jesus, precisamos
aprender a olhar para as pessoas como ele olhava. Isso começa em nossa própria
casa, na maneira como ouvimos nossos familiares, acolhemos suas dificuldades e
oferecemos apoio. Continua na escola, no trabalho, na igreja e nos espaços
digitais em que convivemos. Quantas vezes chegamos ao culto apressados,
participamos da reunião e saímos sem perguntar como está a pessoa que se senta
ao nosso lado? Talvez alguém esteja enfrentando uma crise familiar, uma
dificuldade financeira ou uma dor emocional que ainda não conseguiu
compartilhar.
Uma escuta atenta, uma oração sincera e uma
atitude concreta podem representar um importante sinal do cuidado de Deus.
Confiar no Senhor não significa permanecer
passivo diante das injustiças. A fé nos chama a orar, mas também a agir com
responsabilidade, protegendo os vulneráveis, acolhendo os feridos e procurando
os caminhos adequados para enfrentar o mal. A igreja deve ser uma comunidade em
que as pessoas encontrem dignidade, escuta e apoio concreto.
Não basta falar sobre misericórdia; precisamos
demonstrá-la em nossas escolhas e atitudes. Como ensina Gálatas 6:2, somos
chamados a levar as cargas uns dos outros, cumprindo assim a lei de Cristo
(Gálatas 6:2 — NAA).
O Salmo 109 termina com uma declaração de
louvor que revela a esperança de Davi: “Muitas graças darei ao Senhor com os
meus lábios; eu o louvarei no meio da multidão; porque ele se põe à direita do
pobre, para o livrar daqueles que o condenam” (Salmo 109:30-31 — NAA).
Depois de expor suas feridas e clamar por
socorro, o salmista volta seus olhos para o Senhor, que ouve sua oração e se
coloca ao lado daquele que precisa de auxílio. Sua experiência nos lembra que
podemos buscar a Deus em nossas lutas e, ao mesmo tempo, tornar-nos
instrumentos de sua misericórdia na vida de outras pessoas.
Diante dessa mensagem, quero deixar uma
pergunta para sua reflexão:
Se você, como Davi, reconhece que precisa do
auxílio de Deus, sua fé também tem levado você a perceber e acolher as pessoas
que estão sofrendo ao seu redor?
Talvez o primeiro passo seja retomar uma
conversa, ouvir alguém sem julgamentos, oferecer ajuda ou simplesmente
demonstrar que essa pessoa não está sozinha.
Que o Senhor fortaleça seu coração, sustente
sua esperança e nos ensine a viver de maneira coerente com o evangelho de Jesus
Cristo.
Que nossas palavras promovam a verdade, que
nossas atitudes revelem compaixão e que nossa presença seja uma bênção para
aqueles que precisam de cuidado. Deus não ignora a dor humana, e nós, como seus
seguidores, também não devemos ignorá-la.
CLÁUDIO
EDUARDO M. COSTA
Humanizando
Compaixão
