O
VERDADEIRO LOUVOR RESTAURA A DIGNIDADE HUMANA!
Salmo
113
Você já parou para pensar que o verdadeiro
louvor vai muito além de levantar as mãos durante o cântico de uma música, em
uma celebração ou em um culto? O verdadeiro louvor está relacionado à nossa
intimidade com Deus. E, quando falamos de intimidade com o Senhor, falamos
também de viver, na prática, aquilo que ele nos ensina e de refletir, por meio
das nossas atitudes, o amor, a justiça e a compaixão que recebemos dele.
Hoje, nossa leitura é o Salmo 113. Nele,
aprendemos que o verdadeiro louvor está profundamente relacionado ao
reconhecimento da grandeza de Deus e ao seu cuidado com aqueles que vivem em
situações de vulnerabilidade. O Senhor é exaltado acima de todas as coisas, mas
não permanece indiferente ao sofrimento humano. Ele vê, acolhe e levanta
aqueles que foram humilhados.
O que isso significa para nós?
O
LOUVOR QUE ULTRAPASSA AS PAREDES DO TEMPLO
O Salmo 113 começa com um convite à adoração,
uma convocação para que os servos do Senhor louvem o seu nome. Trata-se de uma
experiência que deve acontecer todos os dias, em qualquer lugar, e não apenas
durante uma celebração religiosa.
Vamos ler Salmo 113:1-3, na Nova Almeida
Atualizada (NAA):
“Aleluia!
Louvem, ó servos do SENHOR, louvem o nome do SENHOR! Bendito seja o nome do
SENHOR, agora e para sempre. Do nascimento do sol até o momento em que se põe,
louvado seja o nome do SENHOR.”
O texto nos ensina que o louvor deve acompanhar
toda a nossa existência. A expressão “do nascimento do sol até o momento em que
se põe” apresenta uma imagem poética que abrange o dia inteiro, do amanhecer ao
entardecer, destacando a continuidade do louvor ao Senhor. Em seu alcance mais
amplo, o texto nos convida a reconhecer que Deus merece ser adorado em todo
tempo e lugar.
Isso significa que não podemos separar a
adoração da maneira como vivemos. Não basta cantar sobre a bondade de Deus;
precisamos permitir que essa bondade transforme nossas relações, nossas
escolhas e a maneira como enxergamos o próximo.
O apóstolo Paulo nos apresenta essa mesma
perspectiva ao nos chamar a oferecer a Deus a nossa própria vida como
sacrifício vivo, santo e agradável a ele. Essa é a verdadeira adoração (Romanos
12:1-2).
O louvor começa nos nossos lábios, mas precisa
alcançar o nosso coração e se manifestar nas nossas atitudes.
O DEUS
GRANDIOSO QUE SE INCLINA PARA CUIDAR DE NÓS
Ao avançarmos na leitura, encontramos uma das
declarações mais extraordinárias desse salmo: o Deus que reina nas alturas se
inclina para contemplar os céus e a terra.
Leiamos Salmo 113:5-8, na NAA:
“Quem
é semelhante ao SENHOR, nosso Deus, cujo trono está nas alturas, que se inclina
para ver o que se passa no céu e sobre a terra? Ele levanta o pobre do pó e
tira o necessitado do monte de lixo, para o fazer sentar ao lado dos príncipes,
sim, com os príncipes do seu povo.”
O salmista apresenta um Deus cuja grandeza não
o torna distante da humanidade. Pelo contrário, o Senhor se inclina para olhar
aquilo que acontece na terra e demonstra seu cuidado por pessoas que vivem em
condições de sofrimento, pobreza e humilhação.
Podemos imaginar um adulto que se abaixa para
ouvir uma criança que deseja falar com ele. Essa imagem nos ajuda a
compreender, de maneira simples, a atitude de alguém que se aproxima para
prestar atenção. Entretanto, o texto bíblico vai além de uma figura de
linguagem: ele proclama que o Deus soberano se importa com a condição humana e
age em favor daqueles que estão em situação de vulnerabilidade.
O Senhor não é indiferente à dor humana!
Ele conhece as nossas necessidades, vê aqueles
que são desprezados e demonstra que a condição social de uma pessoa não
determina o seu valor diante dele.
QUEM
SÃO OS POBRES, OS NECESSITADOS E OS PRÍNCIPES?
Quando o salmista fala do pobre que é levantado
do pó e do necessitado que é retirado do monte de lixo, utiliza imagens fortes
para descrever uma condição de profunda privação, humilhação e exclusão.
São pessoas que, muitas vezes, não dispõem dos
recursos necessários para viver com dignidade. São aquelas que enfrentam a
fome, a falta de moradia, a ausência de oportunidades e o desprezo de uma
sociedade que frequentemente mede o valor humano pelo dinheiro, pela influência
e pela posição social.
Mas o texto também menciona os príncipes. No
contexto do salmo, essa expressão se refere aos nobres e àqueles que ocupavam
posições de honra e autoridade entre o povo.
A imagem apresentada é extraordinária: aquele
que estava no pó é elevado e passa a ocupar um lugar de honra ao lado dos
príncipes.
Precisamos compreender essa mensagem com
cuidado. Deus não precisa diminuir quem já cresceu para levantar quem ainda não
teve a oportunidade de crescer. Ele não precisa retirar a dignidade de uma
pessoa para restaurar a dignidade de outra.
A dignidade humana diante de Deus não diminui
quem já alcançou uma posição de honra; ela nos ensina a elevar aqueles que
ainda não tiveram oportunidades de desenvolvimento.
Não estamos falando de uma disputa entre ricos
e pobres, entre os que possuem conhecimento e os que ainda precisam aprender,
ou entre aqueles que exercem autoridade e os que estão sob sua
responsabilidade. Estamos falando de uma perspectiva de justiça na qual ninguém
deve ser desprezado por sua condição econômica, sua origem ou sua falta de
oportunidades.
Quem conquistou uma posição de responsabilidade
pode usá-la para servir. Quem possui conhecimento pode compartilhá-lo. Quem
dispõe de recursos pode contribuir para que outras pessoas tenham melhores
condições de vida.
O crescimento de alguém não precisa representar
a diminuição de outra pessoa. Pelo contrário, uma sociedade que reconhece a
dignidade humana deve criar condições para que mais pessoas possam crescer,
aprender, trabalhar e desenvolver suas capacidades.
É importante observar também que o salmo não
promete riqueza ou ascensão social automática a todas as pessoas que vivem na
pobreza. Sua mensagem central é a soberania de Deus, que vê os humilhados e
demonstra seu poder para transformar situações de exclusão e restaurar a
dignidade.
A
BÍBLIA NÃO NOS ENSINA A IGNORAR O SOFRIMENTO, MAS A AGIR
Quando olhamos para as Escrituras, encontramos
palavras de encorajamento que nos chamam à coragem, à perseverança e à
responsabilidade. O Senhor disse a Josué que fosse forte e corajoso (Josué
1:9). Em outras passagens, vemos o povo de Deus sendo convocado a agir com
justiça, amar a misericórdia e andar humildemente com o Senhor (Miqueias 6:8).
Isso não significa que devemos ignorar as
dificuldades enfrentadas por quem vive em condições de vulnerabilidade ou
responsabilizar as próprias vítimas por seu sofrimento. A pobreza pode envolver
circunstâncias complexas, injustiças, falta de oportunidades e situações que
exigem apoio concreto.
A mensagem bíblica não é a de que devemos
manter as pessoas dependentes de ajuda permanente, mas também não é a de que
devemos abandonar quem precisa de auxílio. Somos chamados a acolher, socorrer e
contribuir para que as pessoas tenham oportunidades de desenvolver suas
capacidades e viver com dignidade.
O cuidado cristão pode envolver a distribuição
de alimentos, o apoio às famílias, o acesso à educação, a formação
profissional, a orientação e a criação de oportunidades de trabalho.
A compaixão não deve humilhar quem recebe
ajuda. Deve reconhecer seu valor e respeitar sua capacidade de participar da
construção da própria história.
É assim que compreendo a mensagem do Salmo 113:
não é necessário que o príncipe seja lançado ao pó para que o necessitado
encontre um lugar de honra. O que o texto celebra é a ação de Deus em favor
daquele que estava excluído.
O Senhor levanta quem está caído!
JESUS
CRISTO: A EXPRESSÃO DO CUIDADO DE DEUS PELA HUMANIDADE
Ao ler esse salmo, somos conduzidos a refletir
sobre o ministério de Jesus Cristo.
Em Lucas 4:18-19, Jesus anuncia sua missão de
proclamar boas-novas aos pobres, libertação aos cativos e restauração aos
oprimidos. Seu ministério foi marcado pela aproximação de pessoas doentes,
marginalizadas e desprezadas.
Jesus acolheu os que eram rejeitados, alimentou
os famintos, aproximou-se dos enfermos e ensinou seus discípulos a servir. Ele
não deixou de ser o Rei dos reis e Senhor dos senhores por se aproximar
daqueles que sofriam. Pelo contrário, em seu ministério, vemos a grandeza de
Deus revelada em amor, serviço e compaixão.
Em Lucas 1:52-53, o cântico de Maria também
celebra o Deus que derruba poderosos de seus tronos, exalta os humildes e enche
de bens os famintos. Essa linguagem revela a ação transformadora de Deus diante
da arrogância, da injustiça e da miséria.
O evangelho que encontramos nas Escrituras nos
chama a uma experiência de amor, mas também de respeito. As pessoas possuem
dignidade e responsabilidade diante de Deus, inclusive quando fazem escolhas
diferentes das nossas.
Somos chamados a testemunhar a fé cristã com
convicção, sem transformar o cuidado em imposição ou a ajuda em instrumento de
coerção. O amor cristão serve, acolhe, anuncia a verdade e respeita a dignidade
das pessoas.
O Salmo 113 nos convida a viver o evangelho na
prática. Nosso louvor precisa estar intimamente relacionado às nossas atitudes
e a um coração disposto a obedecer ao Senhor.
LOUVAR
A DEUS TAMBÉM SIGNIFICA LUTAR POR JUSTIÇA
Quando olhamos para a realidade em que vivemos,
encontramos uma sociedade marcada pela desigualdade, pela indiferença e pela
busca incessante por reconhecimento. Muitas vezes, as pessoas são valorizadas
pelo dinheiro que possuem, pelo cargo que ocupam ou pela influência que
exercem.
Diante dessa realidade, o Salmo 113 nos convida
a rever a maneira como enxergamos o próximo e a alinhar nossas atitudes aos
princípios da Palavra de Deus.
Como igreja do Senhor, somos chamados a fazer a
diferença, a promover a justiça e a cuidar das pessoas.
Lembro-me de uma época em que muitas igrejas
mantinham escolas e desenvolviam projetos sociais que alcançavam famílias
inteiras. Essas iniciativas demonstravam que a missão cristã não precisava
ficar restrita às atividades realizadas dentro do templo.
A educação, o cuidado social e o anúncio do
evangelho podem caminhar juntos. A escola contribui para a formação das
pessoas; os projetos sociais podem ajudar a enfrentar necessidades concretas; e
a igreja pode oferecer acolhimento, ensino bíblico e oportunidades de serviço.
É preocupante quando consideramos que educação
e igreja não combinam. Ao contrário, ensinar, formar, acolher e contribuir para
o desenvolvimento humano podem ser expressões concretas do amor cristão.
O objetivo não é manter as pessoas em situação
de dependência, mas oferecer ajuda responsável, fortalecer suas capacidades e
ampliar suas oportunidades. Isso exige planejamento, compromisso, respeito e
perseverança.
A própria Escritura nos orienta a praticar o
bem, buscar oportunidades para ajudar e não nos cansarmos de fazer aquilo que é
correto (Gálatas 6:9-10).
Por isso, precisamos compreender que o cuidado
com o próximo não é uma atividade secundária para a igreja. Ele faz parte do
testemunho que oferecemos ao mundo.
Quem tem conhecimento, ensine.
Quem tem recursos, compartilhe.
Quem exerce autoridade, aja com justiça.
Quem conquistou oportunidades, ajude outras
pessoas a encontrá-las.
Quem pode acolher, abra as portas.
E quem anuncia o evangelho, demonstre por suas
atitudes a mensagem que proclama.
O
VERDADEIRO LOUVOR PRECISA TRANSFORMAR A NOSSA MANEIRA DE VIVER
A igreja que louva verdadeiramente também
acolhe, reparte o pão, cuida dos vulneráveis, anuncia o evangelho e trabalha
pela dignidade humana.
Não existe coerência quando cantamos sobre a
bondade do Senhor, mas fechamos os olhos para a dor daqueles que estão próximos
de nós.
Isso não significa que a igreja possa resolver
sozinha todos os problemas sociais, nem que a responsabilidade pelo cuidado
humano pertença exclusivamente às comunidades cristãs. Significa que temos uma
contribuição importante a oferecer e que não devemos nos omitir diante das
necessidades que podemos ajudar a enfrentar.
O Deus que reina nas alturas é o mesmo que vê o
pobre no pó e o necessitado em sua humilhação. Essa verdade deve transformar
nossa maneira de adorar, servir e nos relacionar com as pessoas.
Que o nosso louvor não seja apenas uma canção,
mas uma vida transformada pela presença e pelo poder de Deus!
Que possamos crescer sem desprezar quem ainda
está começando. Que nossas conquistas sejam acompanhadas de generosidade. Que o
conhecimento nos torne mais responsáveis, que os recursos sejam usados com
sabedoria e que a autoridade seja exercida com justiça.
E que aqueles que foram deixados para trás
encontrem, por meio de nossa disposição para servir, apoio, oportunidades e
respeito.
O
verdadeiro louvor exalta a Deus e restaura a dignidade humana. Não precisamos
diminuir ninguém para ajudar outra pessoa a crescer. Somos chamados a refletir,
em nossa vida, o caráter do Deus que se importa com os que sofrem.
Que
Deus abençoe ricamente o seu dia!
Cláudio
Eduardo M Costa
Humanizando
Compaixão
Leitura
bíblica: Salmo 113 (NAA).
Referências
para aprofundamento: Romanos 12:1-2; Josué 1:9; Miqueias 6:8; Lucas
1:52-53; Lucas 4:18-19; Gálatas 6:9-10.