O
SALMO QUE A GENTE QUERIA PULAR...
SALMO
58
Hoje chegamos a um salmo que, sinceramente, eu
gostaria muito de pular. É um salmo que fala sobre injustiça, sobre pessoas que
teriam a obrigação de promover a justiça, mas que estão praticando a injustiça.
É um salmo de Davi, e Davi está dando um grito — um grito por justiça.
Afinal de contas, quando olhamos para a
história do mundo, percebemos que, muitas vezes, pessoas poderosas usam o seu
poder para oprimir aqueles que estão em situação de vulnerabilidade. O Salmo 58
nos fala também sobre a nossa omissão. Muitas vezes conhecemos a verdade,
conhecemos o Deus de justiça e, mesmo assim, permanecemos calados diante dos
problemas que nos cercam.
Por isso, vamos ler o Salmo 58 com o coração
aberto. Precisamos compreender que a Palavra de Deus não nos chama à omissão. Não
podemos nos calar diante da injustiça. Estamos neste mundo para fazer
diferença e, ao mesmo tempo, para sermos diferentes.
Vivemos em uma sociedade na qual muitas coisas
foram sendo normalizadas. A corrupção, a exploração de pessoas, a violência, a
mentira e tantos outros comportamentos que deveriam provocar indignação
passaram, muitas vezes, a fazer parte da rotina. A situação chegou a um ponto
em que algumas pessoas já não se escandalizam mais diante da corrupção. Então,
precisamos parar e pensar:
Que tipo de diferença estamos fazendo na
sociedade em que Deus nos colocou?
Quando olhamos para o Salmo 58, somos
convidados a dar o mesmo grito que Davi deu. Somos chamados a declarar que
servimos ao Senhor, mas não estamos de braços cruzados. Não podemos normalizar
a indiferença, a falta de cuidado, a falta de amor e, principalmente, a
corrupção que destrói pessoas e comunidades.
O Salmo 58 começa com uma pergunta muito forte:
“Será
que vocês, poderosos, de fato falam de justiça? Será que julgam com retidão os
seres humanos?” Salmo 58:1 — NAA
Davi está olhando para pessoas que receberam
responsabilidade e autoridade, mas estão usando essa posição de maneira
perversa. É como se ele estivesse perguntando: “Vocês deveriam proteger os
justos, mas estão praticando a injustiça. Afinal, quem vai fazer justiça?”
Talvez você esteja pensando: “Mas eu sou
pequeno. Eu não posso fazer diferença.” Entretanto, precisamos continuar
meditando nesse salmo e compreendendo qual é o nosso papel na sociedade em que
estamos inseridos. É como se Davi estivesse nos chamando a reconhecer que,
embora confiemos plenamente na justiça de Deus, também precisamos estar
comprometidos com o Senhor e com a sua Palavra.
É claro que confiamos na justiça de Deus. É
claro que sabemos que Deus é o Juiz perfeito. Mas isso não significa que
devemos cruzar os braços diante daquilo que está errado. Deus nos chama para
viver a verdade, defender aquilo que é justo, cuidar das pessoas e fazer o bem.
Existe, porém, outro aspecto importante. Hoje,
muitas pessoas estão tentando resolver os problemas com as próprias mãos. Dá-se
espaço à vingança, à ideia de “olho por olho, dente por dente”, como se a
violência pudesse produzir justiça. Mas não é isso que a Bíblia nos ensina.
Pelo contrário, somos chamados a confiar em Deus, respeitar as autoridades
constituídas e agir corretamente dentro da sociedade em que vivemos. A própria
Bíblia reconhece que existem pessoas que exercem suas responsabilidades com dignidade
e trabalham para proteger aqueles que estão vulneráveis e sofrendo injustiça.
Davi está denunciando a injustiça e levando a
sua indignação para Deus. E aqui surgem perguntas para nós:
Você tem visto injustiça na sua cidade, no seu
bairro, no seu país?
Como você tem reagido?
Você tem se calado porque a injustiça não
atingiu você?
Tem pensado: “Se não é comigo, não é
problema meu”?
Cada um que cuide do seu próprio problema?
Nós somos chamados a cuidar uns dos outros. A
vida cristã não pode ser construída sobre a indiferença. Somos parte do corpo
de Cristo e fomos chamados a amar, servir, cuidar e agir com responsabilidade
diante das necessidades daqueles que estão ao nosso redor.
A Bíblia nos ensina, inclusive, a retribuir o
mal com o bem. Mas retribuir o mal com o bem não significa ser indiferente
diante do mal. Podemos perdoar sem aprovar a injustiça. Podemos amar sem chamar
o errado de certo. Podemos buscar justiça sem transformar nosso coração em um
lugar de vingança.
No Salmo 58:3, Davi continua dizendo:
“Os
ímpios se desviam desde a sua concepção; nascem e já se desencaminham,
proferindo mentiras.” Salmo 58:3 — NAA
É importante compreender corretamente esse
texto. Davi não está dizendo que um bebê, ao nascer, já está conscientemente
praticando maldade, planejando crimes ou desejando fazer o mal. Ele está
apontando para uma realidade que a Bíblia apresenta de forma ampla: o pecado
alcançou toda a humanidade.
Todos nós somos pecadores. Todos nós precisamos
da graça. Todos nós precisamos de transformação. E é justamente aqui que
encontramos a esperança do Evangelho: a nossa cura não está simplesmente em
mudanças externas; está em Jesus Cristo.
Em Jesus encontramos a verdadeira justiça de
Deus.
Jesus enfrentou a maldade humana. Enfrentou a
injustiça. Enfrentou a traição. Enfrentou a rejeição. E nos ensinou a viver em
amor, mas sem sermos omissos diante do pecado.
Lembre-se de Jesus no templo. Havia pessoas
transformando a casa de Deus em lugar de comércio. Jesus não ficou indiferente.
Ele confrontou aquela situação. Também encontramos Jesus confrontando líderes
religiosos que haviam distorcido a verdade e colocado sobre as pessoas cargas
que eles mesmos não estavam dispostos a carregar.
Jesus não ficou indiferente diante da
injustiça. Mas também não permitiu que a injustiça transformasse o seu coração
em ódio. Ele caminhou até a cruz e ali nos ofereceu perdão e salvação. Somos
salvos pela graça e pela misericórdia do Senhor.
Por isso, precisamos tomar cuidado com a ideia
de fazer justiça com as próprias mãos.
Em Romanos 12:19, o apóstolo Paulo nos ensina:
“Amados,
não façam justiça com as próprias mãos, mas deem lugar à ira de Deus, pois está
escrito: ‘A mim pertence a vingança; eu é que retribuirei, diz o Senhor.’” Romanos
12:19 — NAA
Isso significa que eu posso buscar justiça sem
viver dominado pela vingança. Posso denunciar aquilo que está errado sem
permitir que o ódio tome conta do meu coração. Posso defender a verdade sem me
transformar naquilo que estou combatendo.
A vingança destrói. A justiça, quando praticada
segundo os princípios de Deus, busca restaurar, proteger e revelar a verdade.
Quando falamos sobre justiça na sociedade em
que estamos inseridos, quero lembrar também uma frase muito conhecida de Martin
Luther King Jr., pastor batista e importante líder na luta pelos direitos
civis nos Estados Unidos:
“A
injustiça em qualquer lugar é uma ameaça à justiça em todo lugar.”
Essa frase nos faz pensar seriamente sobre a
nossa responsabilidade. Quando eu me omito, quando escolho não falar, quando
decido não me importar e quando não faço aquilo que está ao meu alcance para
promover a justiça segundo os princípios da Palavra de Deus, posso estar
contribuindo para que a injustiça continue crescendo.
Não podemos nos calar diante de tudo.
Não podemos simplesmente dizer: “Não é
problema meu.”
Precisamos ter coragem para defender a verdade,
cuidar das pessoas e agir com justiça. Mas precisamos fazer isso sem abandonar
os princípios de Cristo. Não é o grito de ódio que deve nos conduzir, nem o
silêncio da omissão. É a verdade acompanhada pelo amor, pela justiça, pela
misericórdia e pela coragem.
E
então chegamos ao final do Salmo 58. Davi conclui dizendo:
“Então
se dirá: Na verdade, há recompensa para o justo; de fato, há um Deus que julga
na terra.” Salmo 58:11 — NAA
Que declaração poderosa!
Há um Deus que julga na terra.
Isso significa que a injustiça não terá a
palavra final. Significa que Deus vê aquilo que nós não vemos. Deus conhece
aquilo que está escondido. Deus conhece as intenções do coração. E Deus
continua sendo justo.
Por isso, não precisamos viver dominados pela
vingança. Podemos colocar nossas dores diante do Senhor. Podemos denunciar
aquilo que está errado. Podemos buscar justiça pelos caminhos corretos. Podemos
cuidar daqueles que estão sofrendo. Podemos falar quando for necessário falar e
permanecer em silêncio quando o silêncio for prudência — mas nunca devemos usar
o silêncio como desculpa para a omissão diante do mal.
Talvez hoje você esteja sofrendo por causa de
uma injustiça. Talvez alguém tenha prejudicado você, mentido sobre você ou
causado uma situação que parece impossível de resolver.
Leve isso para Deus.
Converse com o Senhor. Peça sabedoria. Procure
os caminhos corretos. Não permita que a injustiça dos outros transforme o seu
coração em um lugar de amargura.
E lembre-se: a última palavra não pertence
ao injusto. A última palavra pertence a Deus.
O Salmo 58 é realmente o salmo que a gente
queria pular. Mas talvez seja justamente o salmo que precisamos ler quando
a injustiça parece estar vencendo.
Porque ele nos ensina que não devemos ser
indiferentes diante do mal, mas também não devemos nos transformar em agentes
da vingança.
Não o silêncio dos bons. Não o grito de ódio
dos maus.
Que sejamos pessoas que falam a verdade,
praticam a justiça, cuidam do próximo, defendem os vulneráveis e confiam no
Deus que julga com retidão.
Que o seu dia seja muito abençoado e cheio da
justiça de Deus.
Cláudio
Eduardo M Costa