QUANDO
O TRAIDOR ESTÁ PERTO...
— O
QUE FAZER QUANDO SOMOS TRAÍDOS?
SALMO
54
Você já imaginou ser traído por alguém muito
próximo? Alguém que faz parte do seu círculo de amizade, do seu círculo social,
alguém que frequenta a sua casa, conhece sua família, conhece sua história e,
de repente, começa a trabalhar contra você, tentando destruir sua imagem e
prejudicar sua vida? E então surge aquela pergunta dolorosa: “O que foi que
eu fiz contra essa pessoa para ela fazer isso comigo?”
Hoje estamos lendo o Salmo 54, e eu
convido você a refletir comigo sobre uma realidade que pode ser muito dolorosa:
às vezes, a maior decepção não é simplesmente ser traído, mas ser traído
justamente por alguém que caminha conosco, que nos conhece, que nos chama de
amigo e que frequenta a nossa casa.
O Salmo 54 nos coloca diante dessa situação.
Davi está fugindo de Saul, e o contexto histórico aparece em 1 Samuel 23.
Davi havia se escondido na região de Zife, e os zifeus, habitantes
daquela região, foram até Saul para informar onde Davi estava. Os zifeus não
eram estrangeiros nem pertenciam a outro povo. Eram israelitas, habitantes de
uma cidade da região de Judá. Eram pessoas do próprio povo de Davi que
escolheram colaborar com Saul.
E aqui encontramos algo muito interessante. De
um lado estava Saul, o rei, representando poder, autoridade e influência. Do
outro estava Davi, o homem que estava fugindo. Os zifeus escolheram ficar ao
lado daquele que, naquele momento, parecia ter mais poder. Eles enxergaram
oportunidade, conveniência, segurança e vantagem pessoal.
Davi, entretanto, estava seguindo outro
caminho. Ele estava fugindo porque confiava em Deus e porque havia decidido
deixar a justiça nas mãos do Senhor. Ele poderia tentar resolver tudo pela
força, poderia usar seu exército, poderia levantar sua espada contra aqueles
que estavam perseguindo sua vida. Mas Davi escolheu buscar o Senhor, o Deus
eterno, Todo-Poderoso e justo juiz.
Por isso, quando chegamos ao Salmo 54,
encontramos uma oração:
“Ó
Deus, salva-me, pelo teu nome, e faze-me justiça pelo teu poder. Escuta, ó
Deus, a minha oração, dá ouvidos às palavras da minha boca.” Salmo
54:1-2 — NAA
Davi poderia escolher a vingança, mas escolhe a
oração. Ele poderia tentar resolver tudo com as próprias mãos, mas decide
colocar sua causa diante de Deus.
E aqui está uma pergunta importante para nós:
Quando
somos injustiçados, o que escolhemos: justiça ou vingança? Esperar no Senhor ou
tentar resolver tudo do nosso jeito?
Davi não queria descer ao mesmo nível daqueles
que estavam agindo contra ele. Ele queria permanecer fiel a Deus. Afinal, quem
serve ao Senhor precisa compreender que não pode permitir que a maldade dos
outros determine o seu comportamento.
Deus conhece o nosso coração. Deus sabe como
estamos reagindo, quais são nossas intenções e o que estamos planejando fazer.
Por isso, a pergunta também precisa ser feita a nós:
Como
Deus está olhando para o nosso coração hoje?
Estamos buscando justiça ou alimentando
vingança? Estamos confiando em Deus ou tentando controlar tudo com nossas
próprias mãos?
O Salmo 54 continua e, no verso 4, encontramos
uma das declarações mais bonitas desse pequeno salmo:
“Eis
que Deus é o meu ajudador, o Senhor é quem me sustenta a vida.” Salmo
54:4 — NAA
Davi está dizendo, em outras palavras: “Deus
está na direção. Deus está conduzindo a minha vida. Deus é quem me sustenta.”
Isso nos faz pensar sobre o verdadeiro
significado de vitória. Muitas vezes, neste mundo, pensamos que uma pessoa
vitoriosa é aquela que tem muito dinheiro, alcançou sucesso, possui bens ou,
nos dias atuais, tem milhões de seguidores nas redes sociais. Mas o Salmo 54
nos apresenta outra perspectiva.
Vitória é permitir que Deus conduza a nossa
vida e permanecer com um coração obediente diante dele.
E, quando penso em traição, inevitavelmente
penso em Jesus. Ele também foi traído dentro do seu próprio círculo. Seus
discípulos caminharam com ele. Viram seus milagres, ouviram seus ensinamentos,
testemunharam seu amor, viram Jesus cuidar das pessoas e anunciar o Reino de
Deus. Mesmo assim, dentro daquele círculo íntimo havia alguém disposto a
traí-lo.
Judas entregou Jesus por trinta moedas de
prata. Sua motivação estava relacionada ao benefício pessoal. Ele
escolheu aquilo que poderia ganhar.
Pedro também falhou. Quando Jesus foi preso,
Pedro teve medo e negou que o conhecesse. Sua motivação naquele momento era
diferente: ele estava com medo das consequências, medo de ser preso, medo de
sofrer.
São duas manifestações diferentes de uma mesma
fragilidade humana: quando colocamos nossos interesses acima da fidelidade a
Deus, podemos tomar decisões que nos afastam daquilo que sabemos ser correto. Mas
existe uma diferença muito importante entre Judas e Pedro: Pedro foi
restaurado. Judas caminhou para a destruição. Pedro, porém, encontrou o
caminho do arrependimento e da restauração.
Jesus perguntou a Pedro três vezes: “Você me
ama?” E Pedro respondeu afirmativamente. Aquele mesmo homem que havia
negado Jesus tornou-se posteriormente uma testemunha corajosa do Evangelho.
Em Atos 4:20, diante das autoridades,
Pedro declarou:
“Pois
nós não podemos deixar de falar das coisas que vimos e ouvimos.” Atos
4:20 — NAA
Que
transformação!
O Pedro que antes dizia “não conheço esse
homem” agora dizia, em outras palavras: “Eu não posso deixar de falar de
Jesus.” Isso nos leva à pergunta central desta reflexão:
Qual
é a sua motivação na caminhada com Deus?
Você
segue Jesus por conveniência? Pelo que pode receber? Pelo benefício pessoal?
Pelo reconhecimento? Ou segue Jesus porque realmente o ama e deseja ser fiel a
ele?
O Salmo 54 termina com Davi olhando para Deus e
declarando:
“Eu
te oferecerei sacrifícios voluntariamente; louvarei o teu nome, ó Senhor,
porque é bom. Pois ele me livrou de todas as minhas aflições; e os meus olhos
viram a ruína dos meus inimigos.” Salmo 54:6-7 — NAA
Davi termina com louvor.
O homem que estava sendo perseguido termina
reconhecendo a fidelidade de Deus. O homem que foi denunciado pelos zifeus não
termina falando sobre os zifeus. Ele termina falando sobre Deus.
Essa talvez seja uma das grandes lições do
Salmo 54: o traidor pode estar perto, mas Deus está muito mais perto.
Podemos ser decepcionados por pessoas. Podemos
descobrir que alguém que chamávamos de amigo não era tão amigo assim. Podemos
sofrer injustiças, calúnias e até perseguições. Mas nada disso precisa
determinar quem seremos.
Deus é o nosso escudo. Deus é a nossa
fortaleza. Deus é o nosso socorro. Deus está conosco. Por
isso, olhe para sua própria vida e pergunte:
Estou
realmente caminhando com Deus?
Talvez
hoje você precise declarar com fé:
“Deus
está comigo! Nenhuma traição será capaz de me derrotar. Eu confio no Senhor e
sei que ele caminha ao meu lado.”
Mas existe também outro lado dessa reflexão.
Podemos ser traídos por pessoas próximas, mas também podemos escolher ser agentes
de transformação, distribuindo bênçãos às pessoas que estão ao nosso redor.
Não sejamos como os zifeus, escolhendo a
conveniência quando deveríamos escolher a fidelidade. Sejamos como aqueles que
decidiram seguir a Cristo e permanecer fiéis, mesmo quando isso custa alguma
coisa.
Seja alguém que abençoe. Seja alguém em quem as
pessoas possam confiar. Seja alguém cuja presença revele o caráter de Cristo.
Que Deus faça deste dia uma oportunidade para
levarmos outras pessoas a reconhecerem que Jesus é o Cristo, Jesus é o
Senhor e Jesus é o Salvador.
Para
refletir
Qual tem sido a motivação da minha caminhada
com Deus: conveniência, benefício pessoal ou fidelidade?
Quando sou injustiçado, tenho buscado a justiça
de Deus ou tentado fazer justiça com as minhas próprias mãos?
E eu tenho sido, para as pessoas ao meu redor,
alguém que trai ou alguém que abençoa?
Cláudio Eduardo M Costa