DEUS
NÃO ESTÁ INDIFERENTE AO SOFRIMENTO HUMANO
Salmo
10
"Tens
ouvido, Senhor, o desejo dos humildes; tu lhes firmarás o coração e ouvirás o
seu clamor, para fazer justiça ao órfão e ao oprimido, a fim de que o ser
humano, que é da terra, não volte a espalhar o terror." (Salmo
10.17-18 – NAA)
Vivemos
em um mundo marcado pela violência, pela corrupção, pelas guerras, pela fome e
pelas mais diversas formas de injustiça. Basta acompanhar as notícias para
sermos confrontados diariamente com crianças sofrendo, idosos abandonados,
famílias destruídas e pessoas vulneráveis sendo exploradas pelos mais fortes.
Diante dessa realidade, uma pergunta inevitavelmente surge em nosso coração: Onde
está Deus em meio a tanto sofrimento?
Essa
não é uma dúvida exclusiva da nossa geração. Há milhares de anos, o salmista
também olhou para a realidade ao seu redor e fez exatamente a mesma pergunta. O
Salmo 10 começa com um clamor sincero: "Por que, Senhor, permaneces
longe? Por que te escondes nos tempos de angústia?" (Salmo 10.1 –
NAA). Essas palavras não revelam falta de fé, mas a honestidade de alguém que,
mesmo sofrendo, continua levando suas perguntas ao Senhor. Deus não se ofende
quando abrimos o coração diante dele; ao contrário, Ele nos convida a lançar
sobre Ele toda a nossa ansiedade.
Ao
descrever a realidade da sua época, o salmista apresenta um retrato que
continua extremamente atual. Os arrogantes exploram os humildes, os poderosos
abusam da sua força, os necessitados são esquecidos e o pecado parece dominar a
sociedade. O tempo passou, mas o coração humano continua sendo o mesmo. Sempre
que homens e mulheres escolhem viver longe de Deus, o egoísmo substitui a
compaixão, a injustiça ocupa o lugar da justiça e os interesses pessoais
prevalecem sobre o amor ao próximo.
Entretanto,
o povo de Deus nunca foi chamado para simplesmente assistir a essa realidade.
Israel foi separado para viver de maneira diferente entre as nações, refletindo
o caráter santo e misericordioso do Senhor. Da mesma forma, a Igreja de Jesus
Cristo foi enviada ao mundo para ser sal da terra e luz do mundo, demonstrando,
por meio da sua vida, o amor, a justiça e a compaixão de Deus.
Quando
chegamos ao Novo Testamento, percebemos que Jesus revelou de forma perfeita
esse coração compassivo do Pai. Durante todo o seu ministério, aproximou-se
justamente daqueles que eram ignorados pela sociedade. Ele acolheu crianças,
tocou leprosos, restaurou mulheres desprezadas, consolou aflitos, curou
enfermos e anunciou boas-novas aos pobres. Em cada gesto, Jesus demonstrava que
Deus nunca esteve indiferente ao sofrimento humano. Pelo contrário, Deus entrou
na nossa história para caminhar ao lado daqueles que sofrem e oferecer
esperança aos que perderam toda a esperança.
Essa
mesma compaixão deve caracterizar a vida dos discípulos de Cristo. A fé cristã
não pode limitar-se às palavras ou aos cultos realizados aos domingos. Ela
precisa ser visível nas atitudes diárias. Somos chamados a olhar para as
pessoas com os olhos de Jesus, enxergando aqueles que muitas vezes permanecem
invisíveis para a sociedade: as crianças, os idosos, os pobres, os enfermos, os
órfãos, as viúvas e todos os que carregam o peso da injustiça e da exclusão.
Essa
verdade é ilustrada de maneira extraordinária na Parábola do Bom Samaritano
(Lucas 10.25-37). Enquanto representantes da religião passaram indiferentes
diante de um homem caído à beira do caminho, foi justamente um samaritano —
alguém desprezado pelos judeus — quem interrompeu sua caminhada para cuidar
daquele ferido. Jesus ensina que amar o próximo significa agir. A verdadeira
espiritualidade não ignora o sofrimento; ela aproxima-se dele com compaixão e
disposição para servir.
O
Salmo 10 termina renovando nossa esperança ao afirmar: "Tens ouvido,
Senhor, o desejo dos humildes; tu lhes firmarás o coração e ouvirás o seu
clamor, para fazer justiça ao órfão e ao oprimido, a fim de que o ser humano,
que é da terra, não volte a espalhar o terror." (Salmo 10.17-18 –
NAA). Essas palavras nos lembram que Deus continua vendo aquilo que os homens
muitas vezes ignoram. Nenhuma lágrima passa despercebida aos seus olhos.
Nenhuma injustiça ficará para sempre sem resposta. O Senhor permanece atento ao
clamor dos humildes e, no tempo certo, estabelecerá plenamente a sua justiça.
Essa
promessa encontra seu cumprimento definitivo em Jesus Cristo. Na cruz, Ele
assumiu sobre si o pecado da humanidade, venceu a morte por meio da
ressurreição e prometeu voltar para estabelecer definitivamente o seu Reino de
justiça e paz. Até esse dia, Deus continua agindo por meio da sua Igreja. Ele
nos chama para sermos instrumentos da sua graça, levando esperança aos
desesperados, consolo aos aflitos e cuidado aos que sofrem.
O
Salmo 10 nos desafia, portanto, a uma profunda reflexão. Não basta afirmarmos
que somos cristãos; precisamos viver como Cristo viveu. Não basta conhecermos a
Palavra de Deus; precisamos permitir que ela transforme nossa maneira de
enxergar e servir as pessoas. Não basta frequentarmos uma igreja; precisamos
ser uma igreja que se importa, que acolhe, que serve, que protege os
vulneráveis e que manifesta, de forma concreta, o amor de Deus ao mundo.
Que
o Senhor nos conceda um coração semelhante ao de Jesus. Que aprendamos a
enxergar a dor do próximo, a ouvir o clamor dos que sofrem e a viver uma fé
marcada pela compaixão. Assim, seremos testemunhas vivas de que Deus nunca
esteve indiferente ao sofrimento humano e continua agindo, hoje, por meio
daqueles que decidiram seguir os passos de Cristo.
Cláudio
Eduardo M Costa